e eu te disse, Joaquim, quantas vezes eu te disse que já era tempo de você saber. porque veja: ontem até estive pensando, rolando muitíssimo na cama, e quase assaltei o telefone pra te dizer que o que aconteceu, em resumo, é que você não acompanhou a velocidade com que as coisas podem ser subvertidas e reduzidas a um grão de semente mal plantada. entende isso que eu estou tentando explicar, embora tudo o que seja dito seja mais dispensável do que o tempo que se gasta em dizer. lembra quando nós dois caminhávamos por aquelas ruelas de casas de gente velha, os portõezinhos vermelhos, os casacos acolchoando o vento frio, e pelo tamanho infinito daquele momento, nem pudemos dizer nada? é quase isso, mas é ainda antes: não pronunciamos palavra porque já engessados pela não-esperança, pelo futuro de mentira que não seríamos capazes de continuar construindo. dois dias antes, já tinha sonhado com a quebradeira toda, a lâmpada do quarto mal iluminando a estante de livros, a sala escura em que se converteu o olho, a boca, os braços apartados, tudo, e mesmo a palavra não lutou: emudeceu. e é um silêncio mais grave o que remomoro aqui, não digo daquela quietude a que nos afeiçoamos nas tarde de domingo, em que tudo já havia sido dito, mas havia as páginas dos livros virando, o cachorro lambendo as patas e a água reclamando na chaleira o café. quero dizer, estou falando de quando comecei a guardar nos bolsos os assuntos, as idiotices que escutava ao longo do dia e de que você tanto ria , a receita de bolo de abacaxi com amêndoas que eu nem tive vontade de fazer, nem se tivesse farinha no armário da dispensa. nem se tivesse coisa alguma, porque comecei a te achar de uma estupidez escorrida, o jeito de cuspir no chão os caroços de jaboticaba, o dedo indicador direito amarelado pelo cigarro, as calças compridas arrastando a sujeira do quintal pra dentro de casa. e a casa de móveis pequeninos, talhados ali na rua Dr. Virgílio por um marceneiro de muita qualidade, por essa casa eu comecei a nutrir sensações muito perversas, porque quis pintar de preto as paredes da sala e quebrar os azulejos do banheiro com o martelo do Julinho, veja você a que ponto chegamos. e enquanto dormia pesado do meu lado, ainda que a coisa mais linda que eu saiba seja a imagem do teu sono em tempos de férias, você não desconfiava de como era só cansaço o que eu sentia; do tempero do feijão que a tua mão cozinhava apressada, do teu gosto musical brejeiro demais, dos barulhos da cama durante o sexo, e do sexo, na totalidade. e eu disse que já era tempo de você saber, Joaquim, não sei mais de que outro jeito posso gritar que já é tempo de você saber.