6.5.09

às 15h



célere
corrompido
augusto
e monotemático

o coração.

2.3.09

janeiros


tive vontade de dizer, depois de todo esse silêncio. gostei do silêncio; estive pensando, estive vivendo, saciando sedes reconhecidamente minhas. meu capricho com as palavras enfraqueceu, tamanho o jorro que é o externo, o caminhar. é de um correr que digo, mesmo que oscilante e desajeitado, posto que o medo, esta cola pegajosa e repassada por mim, ainda não deixou de me acompanhar. quanto a isso, não sei bem, confundo posturas, é uma tentação condenar minhas reservas, embora não me pareça assim tão sensato. sou um bicho acuado. taí, isso eu descobri.

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lembro de ter me impressionando com o que o Amarante disse, de que está investigando a vida, a música, deus, o amor. achei bonito, não só por ter vontade de fazer isso – e de alguma forma estar fazendo -, mas porque é das posturas menos arrogantes. prescinde de certezas, admite o erro, nos coloca como agentes do mundo. descobridores, curiosos, pouco receptivos a teorias exatas. é o que quero fazer de mim diante da vida, nem que demore o espaço de toda ela.
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o amor questão maior. resisto ao impulso de desejar respostas, quando consigo - desejos não são passíveis de grandes recusas. e porque não são, fazem do amor o agente mais transformador de que tenho conhecimento. nada de novo, os homens de todos os tempos dizem da impossibilidade de entender o amor e suas aplicações. mas me maravilha a descoberta, tão humana e infinita. o desconhecido, que me amedronta em primeira medida, me emociona mais. desatino com o que está fora do controle, choro tanto, depois me sinto como alimentada do que de mais puro há. o pó de onde todos viemos.
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a água insistia em molhar nossas pernas e o joelho enfaixado do homem que, munido de um sorriso muito branco, olhou-me no meio do mar e disse: você podia se chamar Carmen. É, podia mesmo. eu posso me chamar qualquer coisa.
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11.12.08

road piano


“tudo passa”, ouvi minha mãe suspirar ao abrir uma caixa perdida no meio da mudança, entre cabides e agendas escolares. escondida entre os escombros da infância, uma foto de Patrícia, uma ex-namorada do meu irmão – paixão adolescente, regada a álcool, ciúme e sexo barulhento. senti um pouco da dor dela, ou dessa dor que é a de todos nós, as coisas que passam, fluidas, as coisas que ficam, sólidas. por muito me assustei com o Tempo, apegada ao pensamento mais óbvio, o primeiro, talvez mais cômodo, de que a velocidade do mundo espalha sentidos e pessoas. embaralha vontades, desfaz conceitos, assopra planos – calcifica em solos sagrados os pés, pra depois insinuar, numa tempestade de vento, que não há solo. nem nunca houve: presente ilusório, combustível necessário ao movimento, ao deslocamento. percebe o ciclo? ilusão empurra, descola os pés, que se querem pregar em outra calçada, e depois o vento...exaustivamente. às vezes rio-me de meu cacoete, colocar as coisas numa linha reta, de modo a enxergá-las melhor, quem sabe vivê-las sem tantos alarmes; digo, sem tremular, o viver é de uma extensão tamanha que mãos hesitantes não seguram coisa alguma, nem quando é o caso de agarrar um grão de areia qualquer. entendi que não é só o Tempo, que existem tantas outras grandezas maiúsculas, mas não sei, não sei – debruço-me sobre meandros profundos, tortuosos.

2.11.08

O abraço, de Egon Schiele



21.10.08

de todas as maneiras

e eu te disse, Joaquim, quantas vezes eu te disse que já era tempo de você saber. porque veja: ontem até estive pensando, rolando muitíssimo na cama, e quase assaltei o telefone pra te dizer que o que aconteceu, em resumo, é que você não acompanhou a velocidade com que as coisas podem ser subvertidas e reduzidas a um grão de semente mal plantada. entende isso que eu estou tentando explicar, embora tudo o que seja dito seja mais dispensável do que o tempo que se gasta em dizer. lembra quando nós dois caminhávamos por aquelas ruelas de casas de gente velha, os portõezinhos vermelhos, os casacos acolchoando o vento frio, e pelo tamanho infinito daquele momento, nem pudemos dizer nada? é quase isso, mas é ainda antes: não pronunciamos palavra porque já engessados pela não-esperança, pelo futuro de mentira que não seríamos capazes de continuar construindo. dois dias antes, já tinha sonhado com a quebradeira toda, a lâmpada do quarto mal iluminando a estante de livros, a sala escura em que se converteu o olho, a boca, os braços apartados, tudo, e mesmo a palavra não lutou: emudeceu. e é um silêncio mais grave o que remomoro aqui, não digo daquela quietude a que nos afeiçoamos nas tarde de domingo, em que tudo já havia sido dito, mas havia as páginas dos livros virando, o cachorro lambendo as patas e a água reclamando na chaleira o café. quero dizer, estou falando de quando comecei a guardar nos bolsos os assuntos, as idiotices que escutava ao longo do dia e de que você tanto ria , a receita de bolo de abacaxi com amêndoas que eu nem tive vontade de fazer, nem se tivesse farinha no armário da dispensa. nem se tivesse coisa alguma, porque comecei a te achar de uma estupidez escorrida, o jeito de cuspir no chão os caroços de jaboticaba, o dedo indicador direito amarelado pelo cigarro, as calças compridas arrastando a sujeira do quintal pra dentro de casa. e a casa de móveis pequeninos, talhados ali na rua Dr. Virgílio por um marceneiro de muita qualidade, por essa casa eu comecei a nutrir sensações muito perversas, porque quis pintar de preto as paredes da sala e quebrar os azulejos do banheiro com o martelo do Julinho, veja você a que ponto chegamos. e enquanto dormia pesado do meu lado, ainda que a coisa mais linda que eu saiba seja a imagem do teu sono em tempos de férias, você não desconfiava de como era só cansaço o que eu sentia; do tempero do feijão que a tua mão cozinhava apressada, do teu gosto musical brejeiro demais, dos barulhos da cama durante o sexo, e do sexo, na totalidade. e eu disse que já era tempo de você saber, Joaquim, não sei mais de que outro jeito posso gritar que já é tempo de você saber.

22.9.08

o chão de ontem

nas letras espelhadas de pablo neruda
eu flagrei o teu corpo
debruçar-se sobre o meu corpo
e os olhos perplexos assistiram
os movimentos de que temos sido capazes.

25.8.08

acontece

Foi todo o tempo no ônibus de volta à casa tentando elaborar um outro jeito de dizer, que não parecesse tão óbvio ou aflito, que em nada se assemelhasse ao estilo dos escritores do mês – até mesmo os da vida tentava ignorar -, quis, como pouca coisa já havia desejado, tirar a roupa das palavras, deixá-las brutas, distantes de qualquer vocabulário passado – que usam tanto as palavras, as pessoas, que as roubam pra si, pra sempre de nós -, mas insistia a frase pronta, fervia, de modo que suspirou e teve certeza que daquele jeito não seria possível, que era capaz que não acreditassem no que dizia; nesse momento, cogitou até consultar o colega de banco, mas como a cara do homem estava de todo insatisfeita, feito devem ser os anos de viuvez quando se foi feliz, engoliu a seco o esboço de uma nova construção.

Enquanto descia a escada do ônibus, agarrou o último fiapo de tentativa. E desistiu.